Um outro olhar sobre o mundo

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Arbeit Macht Frei?



Arbeit Macht Frei?

Num ou noutro texto publicado por aí, mais se falarmos de internet, vai circulando a ideia do inevitável fim da sociedade do trabalho. Afinal, o trabalho não constituí a satisfação de uma necessidade, mas apenas o meio para satisfazer outras necessidades, disse-o Marx, o Karl, mas bem podia ter sido o Groucho. O trabalho é uma maçada e isso do “sou feliz é a trabalhar” coisa de quem pouco mais fez, dita da boca para fora para evitar que nos tomem por mandriões. Tirando as excepções em que o trabalho se vai confundindo com o prazer, ninguém gosta de trabalhar. Devia ser um hobby.

Até meados dos anos sessenta do século passado, podemos dizer que o trabalho libertava da fome, do frio e, em alguns casos, de uma condição social desfavorável. Hoje o trabalho já não liberta do que quer que seja e nunca mais chegará para todos. Tal como previsto em inúmeras obras de ficção científica mais ou menos distópica, a produção de riqueza já descolou da força de trabalho humano. Com as novas tecnologias, a sociedade assente no trabalho atinge o seu limite histórico. Todavia, mudou a realidade, mas permanecemos, à esquerda e à direita do espectro político, manietados pelo dogma do trabalho e do homem reduzido a animal laborans ou objecto mercantil. O trabalho foi-se esvaziando de conteúdo e o orgulho do trabalhador posto de lado, restando a simples obrigação, princípio abstracto que se impõe de forma coerciva sobre toda uma sociedade. Estes são os tempos do trabalho pelo trabalho e do homem degradado ao estatuto de escravo dócil, a um instante de ser substituído pela máquina. Todo aquele que não consegue vender a sua força de trabalho e encontrar o seu lugar na engrenagem cai fora do contrato social e torna-se dispensável, lixo social.
O trabalho já não liberta do que quer que seja, deixou de ser o meio que nos permite usufruir de nós ou do tempo para nós com autonomia. Com o advento da indústria, o trabalho assumiu uma importância desproporcionada sobre tudo o resto, converteu-se na essência negativa do homem e estabeleceu um novo apartheid social, a tal ponto que é melhor ter um trabalho qualquer do que nenhum, por mais sujo, escravizante ou absurdo. Entretanto, vão os governos, em modo decorativo, simulando um trabalho em vias de extinção, anunciando programas de formação e ocupação supérfluos e redundantes ou chegando ao ponto de cortar no subsídio de desemprego e no apoio social como incentivo para o regresso a um trabalho que já não existe. Perpetua-se o mantra que nos incorporaram como se da nossa natureza se tratasse, repetido à exaustão, é melhor ter um trabalho qualquer, é melhor ter um trabalho qualquer, com qualquer salário, em qualquer lugar, sem qualquer prazer, sem qualquer utilidade, a qualquer custo. Passando por cima de todos num sistema auto-repressivo que divide, nos divide, de um lado os que ainda têm trabalho e do outro os parasitas.“A civilização não tem lugar para os ociosos”, concretiza-se a profecia fordiana e assume-se uma sociedade de açaimados pelo trabalho ou pela caridade.
Estará a única saída na libertação social da dependência do trabalho e na alteração do modo como se concebem as sociedades, deixando de tomar de forma exclusiva o trabalho como princípio organizador da vida individual e colectiva, deixando de impor ao sujeito a responsabilidade de procurar algo que já não existe, descartando a lógica de qualquer trabalho a qualquer custo e substituindo-o por um “rendimento mínimo de prosperidade e dignidade”. Não se trata de acabar com o trabalho, apenas de aceitar que não mais existirá para todos, permitindo àqueles que o desejam e mereçam ser por ele recompensados, mas providenciando a todos os demais a possibilidade de viver livres da obsessão pelo trabalho, banindo de vez o termo “desemprego” e tudo o que de negativo lhe vem acoplado.
Ideia disparatada ou ingénua, dirão quase de imediato os interessados em perpetuar um sistema que arrasta milhões num estado de semi-vida que corrói toda uma convivência democrática que levou demasiado tempo a construir. Os mesmos que até aqui nos trouxeram e que persistem agora na receita do inevitável, tão útil como uma aspirina para um tiro na cabeça.
Não é uma ideia original, que cada vez as há menos, mas vai alastrando, exigindo uma reformulação total da segurança social e da forma de pensar, uma mudança para um paradigma que assente na reflexão e no sentido crítico, algo cada vez mais remoto, quando, a cada dia, nos é imposta uma definitiva visão do mundo na qual somos escravos do trabalho ou estamos desempregados. Só assim será possível inventar um mundo para além da ditadura do trabalho e do dinheiro, um mundo sem a castradora separação entre o sujeito-económico e o sujeito-cidadão, causa principal do conformismo político. Porque uma democracia forte deve firmar-se sobre a preocupação que pressupõe ver o outro como ser humano e não como objecto (Martha Nussbaum), investindo num modelo social que promova a formação integral do ser humano. Sem deixar ninguém de fora. Sem deixar ninguém para trás.
Ou aceitamos o retrocesso a uma qualquer forma de vida semelhante à feudal, ou arriscamos algo novo, na tentativa de restaurar a dignidade do homem e uma vida com sentido.

Miguel Cardoso

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da necessidade do desassossego...

90 anos de José Saramago

"As misérias do mundo existem, e só há dois modos de reagir perante elas: ou uma pessoa acha que não tem culpa e, portanto, encolhe os ombros e diz que não está nas suas mãos remediar nada - e isto é verdade -, ou então assumir que, mesmo quando não está nas nossas mãos resolver, temos de nos comportar como se assim fosse" (pp 369-370)

"A pergunta que todos devíamos colocar-nos é: O que é que eu fiz se nada mudou? Deveríamos viver mais no desassossego. O amanhã não acontecerá se não mudarmos hoje." (p.371)


"É a hora de uivar, porque se nos deixarmos levar pelos poderes que nos governam, e não fazermos nada para contrariar isso, pode dizer-se que merecemos o que temos" (p.375)

"Temos de começar a uivar, comecemos a uivar."(p.373)

 (citações tiradas do livro:José Saramago nas Suas Palavras (edição e selecção de Fernando Gómez Aguilera,  Lisboa, Caminho,  Outubro de 2010 - selecção de citações por de Maria Cardoso)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Historiador de Elizabeth Kostova



Drácula parou diante de uma grande estante e pousou a mão sobre ela de modo afectuoso.
- Esta tem um especial interesse para mim, e terá para si também, penso. Estas obras são biografias minhas.
Cada um dos livros estava de alguma forma relacionado com a sua vida. Havia obras de historiadores bizantinos e otomanos - algumas delas originais muito raros - e as suas muitas reimpressões através dos tempos. Havia opúsculos medievais da Alemanha, Rússia, Hungria e Constantinopla, todos documentando os seus crimes. Muitos deles nunca os tinha visto nem os vira referidos no decorrer da minha pesquisa, e senti uma onda irracional de curiosidade antes de me lembrar que já não tinha motivo, nesta altura, para completar a pesquisa. Havia também numerosos volumes sobre folclore, a partir do século dezassete, que se referiam à lenda dos vampiros - achei estranho e terrível que os incluísse tão abertamente entre as suas próprias biografias. Apoiou a mão larga numa das primeiras edições do romance de Bram Stoker e sorriu, mas nada disse. Depois passou em silêncio para outra secção.
- Isto é de especial interesse para si também - disse. - São obras de História sobre o seu século, o século vinte. Um óptimo século, aguardo ansioso pelo seu final. Na minha época, um príncipe só conseguia eliminar os elementos indesejáveis um de cada vez. Vocês fazem isso com um alcance infinitamente maior. Pense, por exemplo, no aperfeiçoamento que houve desde o maldito canhão que derrubou as muralhas de Constantinopla até ao fogo divino que o seu país de adopção lançou contra as cidades japonesas há alguns anos. - E esboçou uma vénia, cortês, congratulatório.

Elizabeth Kostova, O Historiador, Editora Gótica, 2008
(também numa colecção da Biblioteca Sábado)
imagem

sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Pensar de pernas para o ar

Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição
as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão

(de O Inventão, Afrontamento, 1987)
(imagem daqui)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

OS LIVROS ÀS COSTAS


«Estamos a mudar de casa, a dormir na casa antiga e a transformar a casa nova, que era tão bonita, quando estava vazia, numa instalação anos 70 de pilhas de livros.


Saem caros e dão trabalho os livros que mudam de casa muitas vezes. Sofrem com as mudanças mas eu sibilo, entredentes, que é bem feito. É um pesadelo no verdadeiro sentido da palavra: é como aqueles sonhos em que se tenta fazer sempre a mesma coisa, sempre sem conseguir.

As pessoas que não percebem nada de livros e aquelas que "adoram" livros e acham que têm "imensos" porque têm umas centenas e "não têm onde arrumá-los"; que "amam" o cheiro dos livros e "não resistem" quando entram numa livraria; que eram "incapazes" de ter um Kindle porque "não prescindem" do peso e da "sensualidade, quase", de ter um livro impresso nas mãos, que folheiam como quem dedilha uma harpa ou uma peça de genitália; essas pessoas não se cansam de nos confortar, dizendo-nos que, quando os livros estiverem todos arrumadinhos (que nunca ficam), vamos sentir-nos em casa, contentes que cada livro está outra vez no lugar que era o dele.

É mentira. Os livros são uma praga. Quem tem o vício deles não se contenta com lê-los e tê-los. Precisa sempre de livros novos. E não prescinde dos velhos - mesmo daqueles de que não gostou muito e que tem a certeza de que jamais irá reler.

Que são a grande maioria. Aquela que se transporta. Aquela que mortifica. Aquela que revela a nossa futilidade. E despesa.»

(Miguel Esteves Cardoso, Público - 17/06/12)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ray Bradbury - Mestre da ficção científica (1920-2012)


O mestre da ficção científica, o escritor norte-americano Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451 (1953), adaptado ao cinema pelo francês François Truffaut, e de Crónicas Marcianas (1950) morreu terça-feira, aos 91 anos, em Los Angeles.


“Mr. Bradbury morreu serenamente, a noite passada, em Los Angeles, depois de uma longa doença”, disse à Reuters um porta-voz da editora norte-americana HarperCollins. O seu neto Danny Karapetian e o biógrafo, Sam Weller, confirmaram a notícia ao blogue dedicado à ficção científica io9. “O mundo perdeu um dos seus maiores escritores e uma das pessoas que me eram mais queridas”, twittou Karapetian. “[Foi] a maior criança que conheci”, disse ainda ao blogue especializado.

Nascido em Agosto de 1920 no estado do Illinois, Ray Bradbury, um dos fundadores da literatura fantástica contemporânea, deixou-se fascinar pelos livros aos sete anos, com Edgar Allan Poe, e aos 17 estreava-se nas páginas de uma revista de ficção científica, com a primeira novela das quase 500 que assinou, “Script”.

Aos 14, quando os pais se mudaram para Los Angeles, transformara-se num rato de biblioteca e dizia muitas vezes que era um escritor autodidacta, que aprendera simplesmente a ler os grandes autores: “Ensinaram-me Shakespeare e Júlio Verne. Foi Edgar Allan Poe que me disse para escrever. […] Os grandes nomes foram a minha influência e com eles nunca precisei de mais conselhos”, contou numa entrevista agora citada pelo diário espanholEl País

Tendo começado pelas novelas de terror, foi com Crónicas Marcianas e Fahrenheit 451 que atingiu o sucesso. A primeira é uma obra sobre os riscos da desumanização perante o avanço científico, a segunda, feita numa máquina de escrever que precisava de uma moeda para funcionar, na biblioteca da Universidade da Califórnia, evoca os perigos do totalitarismo através da criação de uma era de guerra em ignorância, em que os bombeiros se ocupavam da queima de livros e não da extinção de incêndios, explicava ontem o diário britânico The Guardian

Autor prolífico – para além de centenas de novelas escreveu mais de 30 romances, contos e poemas, além de guiões para cinema e televisão –, Ray Bradbury fazia dos seus livros em que criava mundos fantásticos espaços de crítica aos excessos da sociedade contemporânea. Em 2010, por exemplo, chegou mesmo a defender numa entrevista ao jornalLos Angeles Times que os Estados Unidos precisavam de uma “revolução” para travar o poder desmesurado do Governo. “Na vida, como na escrita, devemos agir com paixão: [assim] as pessoas vêem que somos honestos e perdoam-nos muita coisa”, disse Bradbury noutra conversa citada esta quarta-feira pela AFP. 

Um dos autores mais lidos da sua geração, Ray Bradbury manteve até ao fim o mesmo entusiasmo, dizem familiares e amigos. “A coisa mais divertida da minha vida é levantar-me cada manhã e correr para a máquina de escrever porque tenho uma ideia nova”, confessou em 2000 este homem da ficção científica que sempre se recusou a publicar seus livros em formato electrónico e dizia com frequência que as pessoas tinham gadgets a mais. 

Fica o link para Fahrenheit 451 (legendado), talvez a mais famosa adaptação ao cinema de uma das suas obras, dirigida por François Truffaut em 1966


quinta-feira, 26 de abril de 2012

BRAM STOKER (8 de Novembro de 1847 - 20 de Abril de 1912


Bram Stoker. Até à última gota de um filão literário
A Roménia do século XV não sorria a esposas infiéis, damas promíscuas, deslizes de súbditos ou a qualquer outro tipo de inimigo particular de Vlad, o Empalador, título granjeado com a sua predilecção para punir adversários de uma forma particularmente medonha. Dispensaremos detalhes das execuções para o caso de ainda não ter almoçado e pretender fazê-lo em breve – os requintes de malvadez incluem o arrancar de peles a vivos e outras modalidades de sofrimento prolongado em público. Os métodos pouco amistosos valeram-lhe outro cognome, herdado do pai, Draculea, ou “filho do dragão”, uma bandeira da sociedade cristã romana criada por nobres da região para defender o território da invasão dos turcos otomanos.
Dentes cravados no pescoço seriam o menor dos males para as vítimas deste príncipe de carne e osso, que espalhou o terror pela Transilvânia e inspirou Bram Stoker na criação do seu “Dracula”, uma ficção de terror com laivos góticos e caninos afiados, saída de uma pesquisa do irlandês pelo folclore europeu.
A obra, publicada pela primeira vez em 1897, esteve longe de ser sucesso instantâneo entre a sociedade de final do século XIX, apesar de as críticas lhe renderem a devida vénia. Stoker evidenciava-se ao ponto de fazer sombra a Mary Shelley e Edgar Allan Poe mas estaria longe de acreditar que o imaginário mitológico do vampiro ganharia o estatuto de lenda no século seguinte e mais além. Que as histórias de gelar o sangue se perpetuariam em romances posteriores, palcos de teatro e sagas no cinema, seja em versão paródia, em encontro tântrico entre adolescentes, ao melhor estilo “Crepúsculo”, ou impregnado de propriedades regeneradoras e de uma carga sexual superior à repulsa do conde macabro por alho, em jeito “True Blood”.
Por mais que se mudem os tempos e as adaptações, prevalece quase sempre um denominador comum na sua biografia. Saído da Idade Média, Drácula foi um conde da Transilvânia que se tornou um vampiro e feiticeiro e assolou a Inglaterra séculos depois. Stoker distinguiu-se ao sugar as superstições e o combate aos demónios legado por civilizações ancestrais, as histerias colectivas, os pavores do patriarcado vitoriano, catalisando as ansiedades de uma era, inspirado pelo sucesso da obra de 1819 de John Polidori, “The Vampyre”, que fixou o arquétipo da figura carismática.
O vampiro mais famoso da literatura é, segundo o Livro do Guiness, o monstro fictício com maior número de aparições. No cinema, estreou-se em “Nosferatu”, ainda que o expressionismo mudo de F. W. Murnau não tenha contado com a permissão dos herdeiros do escritor para a realização da obra, em 1922. Processado por violação de direitos de autor, as cópias do filme que sobreviveram à destruição imposta pela justiça permaneceram guardadas até a morte da viúva de Bram Stoker. “Nosferatu” viria a contar com uma versão actualizada de Werner Herzog, em 1979.
A primeira adaptação autorizada remonta a 1931, com Béla Lugosi dirigido por Tod Browning, no papel do nobre anfitrião de um castelo nos Montes Cárpatos que se revela um vampiro sedento de sangue humano que só pode sair à noite, sob a forma de morcego, lobo, ou envolto numa espessa névoa. Há ramificações da história para todos os gostos. Em 1943, Lon Chaney Jr. é “O Filho do Drácula”. Terence Fisher destaca “As mulheres do Drácula” em 1960.
Em 1992, Francis Ford Coppola filma “Drácula de Bram Stoker”, com Gary Oldman, Winona Rider, Keanu Reeves e Anthony Hopkins. Já em 2004, “Van Helsing” apresenta Hugh Jackman como caçador de monstros, entre eles o omnipresente Drácula.
A vida de Abraham “Bram” Stoker foi menos empolgante que a de qualquer soberano da Europa oriental, com mais ou menos tendências bizarras, exceptuando o facto de ter conquistado uma ex-pretendente de Oscar Wilde. Nasceu a 8 de Novembro de 1847, em Dublin, onde frequentou o Trinity College. Mais tarde formar-se-ia em matemática pura. Em 1866 é contratado para trabalhar no castelo de Dublin e escreve o manual “Deveres dos Amanuenses e Escrivães nas Audiências para Julgamento de Pequenas Causas e Delitos na Irlanda”. Em 1878 casa-se com Florence Balcombe e aceita a oferta de um amigo, o actor Henry Irving, para administrar o Royal Lyceum Theatre de Londres. Noel, o único filho do casal, nasce um ano depois, quando Stoker publica o seu primeiro livro, “The Duties of Clerks of Petty Sessions in Ireland”, seguindo-se a colectânea de contos “Under the Sunset”. Stoker foi crítico de teatro num jornal irlandês e engrossou a equipa literária do londrino “Daily Telegraph”.
“Drácula”, a base da ficção moderna sobre vampiros, terá começado a ser escrito em 1890, apesar de à data o romance, que lançaria sete anos mais tarde, ainda não ter título. Livros como “O Castelo da Serpente” (1981) ou os posteriores “O Caixão da Mulher-Vampiro” (1909) e “A Toca do Verme Branco” (1911), o seu derradeiro romance, denotam a inclinação para o fantástico. Stoker, que sofreu um derrame cerebral em 1905, ano da morte do amigo Irving, termina os seus dias em Londres, a 20 de Abril de 1912.

quarta-feira, 21 de março de 2012


MANOEL DE BARROS
                  botemos verso...

O Poeta                                                                                                                  
Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei o meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

      Manoel de Barros, O Encantador de Palavras.

Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como
um rosto

     Manoel de Barros, O Encantador de Palavras.

domingo, 11 de março de 2012




O desenhador e artista de banda desenhada Jean Giraud, conhecido como Moebius, morreu neste sábado aos 74 anos, vítima de doença prolongada, de acordo com um colega de trabalho, noticia a agência noticiosa francesa AFP.

Jean Henri Gaston Giraud foi um dos principais cartoonistas franceses, tendo também alcançado a fama no Japão e nos Estados Unidos.

Nascido em Nogent-sur-Marne, a este de Paris, a 8 maio de 1938, começou como ilustrador para publicitários e para a indústria da moda antes de se dedicar à banda desenhada.

Jean Giraud ficou conhecido com a criação do Tenente Blueberry e adotou o pseudónimo Moebius para ilustrações em revistas e livros de ficção científica.

Para além de ter publicado o seu trabalho em várias revistas francesas, Moebius trabalhou ainda com artistas japoneses de manga e co-produziu uma aventura do super-herói norte-americano O Surfista Prateado com Stan Lee, pai de grande parte das criações da Marvel.

(Sol)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Moacyr Scliar (23/03/37 a 27/02/11)



Cego e amigo Gedeão à beira da estrada
Moacyr Scliar

— Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?

— Não, Cego. Foi um Simca Tufão.

— Um Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.

Este que passou agora não foi um Ford?

— Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.

— Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.

É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?

— Não, Cego. Foi uma lambreta.

— Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.

Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!

Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?

— Não, Cego. Foi o ônibus.

— Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.

Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?

— Não. Foi um Volkswagen 1964.

— Ah, um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?

— Não, Cego, não foi um Candango.

— Eu estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam por onde começar.

Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!

— Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.

— Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?

— Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.

— Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei:
"Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?"

— "Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele. "Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada.

Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?

— Não, Cego. Foi um Volkswagen.

— Sim. O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora, delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei — além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?

— Não, Cego. Foi um Chevrolet.

— O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?

— Não, Cego. Foi um Ford 1956.

O texto acima foi publicado no livro "Para Gostar de Ler — Volume 9 — Contos", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 26. - Retirado daqui

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo de Martin Scorsese

O filme de Scorsese é uma adaptação de um livro de Brian Selznick que conta a história de Hugo, um órfão, guardião dos relógios e ladrão, que vive por entre as paredes de uma movimentada estação de comboios parisiense, onde a sua sobrevivência depende de segredos e do anonimato. Quando o seu pequeno mundo se encaixa - tal como as rodas dentadas dos relógios que vigia - com o de uma excêntrica rapariga amante de livros e o de um velho amargo, dono de uma loja de brinquedos, a vida secreta de Hugo e o seu segredo mais precioso são colocados em risco. Um desenho misterioso, um bloco que vale ouro, uma chave roubada, um homem mecânico e uma mensagem escondida do falecido pai de Hugo formam a espinha dorsal deste intrincado, terno e arrebatador mistério.

Este é um livro que faz parte do Plano Nacional de Leitura






quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Al Berto (11/01/1948 - 13/06/1997)


CROMO

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al Berto, in 'Salsugem'

Eugénio de Andrade (19/01/1923 - 13/06/2005)


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

                   Eugénio de Andrade

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

Luiz Pacheco (07-05-1925 a 05-01-2008)



 "Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de  carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na  boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

     É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
    Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
       (...)
        Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!
            Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
        Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços.
        As vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau, génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas ? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores na Avenida! E deixem-me que lhes diga: se é precisa a maior vigilância com as maganas das lêndeas e as brincalhonas pulguitas (especialmente daquelas pequeninas, estilo terroristas, são mesmo uns amores!), a graça que tem a Irene na caça à bicharada, desporto conceituado nas brenhas beirãs onde a fui escolher, e como se alegra dizendo «era uma verdadeira toira !» ou «esta tinha o rabo branco, eram duas às cavalitas», o que só demonstra que na classe agrária, enquanto não chega o dia do tractor e da reforma, a educação feminina quedou nessas prendas doméstico-venatórias do olho atento, dedos que nem setas, unhas como guilhotinas.
        Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme. A tribo dorme: a Lina mostra um punho fechado (ideias avançadas terá a mocinha?); o rapaz está de costas e quase destapado (parece um Cupido cansado; na larga queixada, porém, uma expressão terrena, máscula - a cara camponesa e rude do avô Matias); o bebé ressona ou balbucia qualquer uma esperança que só ele entende. Ela, a Irene, a minha pequena deusa de tranças loiras, encosta-se a mim e calada cálida repousa cansada. Sou um deus grego ! Fauno serôdio, Pan sem flauta, Orfeu decaído de quantas desilusões e frios cinismos, um Vulcano cornudo às ordens de Vocências, do meu espaldar senhorial contemplo o rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro. E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chegue a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões que o enfizema vai dilatando minguando a elasticidade; que o meu coração eia! sus! bata ainda quando, num quintal que não sei, perto, o galo canta.
        Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)"
        (...)

("Comunidade", Contraponto, 1964)    
Luiz  Pacheco - Escritor, crítico literário, polemista maldito, fundador da editora Contraponto,  nasceu em Lisboa em 1925. Próximo da tendência  surrealista, escreveu entre outras obras, 'O Teodolito' (1962); 'Comunidade' (1964); 'Crítica de Circunstância' (1966); 'O Libertino Passeia por  Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor' (1970); 'Literatura Comestível' (1972); 'Memorando Mirabolando' (1995).
(daqui) 

domingo, 27 de novembro de 2011

Mário Cesariny - 09/08/1923 - 26/11/2006

Mário Cesariny - Welcome to Elsinore (Entre nós e as palavras o nosso dever fala) dito pelo próprio


Mário CesarinyHá uma hora



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