Um outro olhar sobre o mundo
domingo, 12 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
100 anos sem Mark Twain
Há cem anos a notícia da morte de Mark Twain não foi exagerada
Este texto poderia começar com uma das dezenas de citações famosas de Mark Twain, o autor que considerava deixar de fumar "a coisa mais fácil do mundo": ele próprio o tinha feito uma porção de vezes. Mas houve coisas realmente importantes na sua história. Samuel Clemens, nome de baptismo, foi um dos mais importantes autores americanos do século XIX, que através do sarcasmo e da ironia, descreveu e criticou a sociedade americana, bem como toda a espécie humana. Não poupou governos, Igreja, políticos e riquezas acumuladas. Faz amanhã cem anos que Mark Twain morreu, quatro meses depois da sua filha mais nova. Tinha 74 anos e deixou mais de 30 livros publicados (entre eles "As Aventuras de Huckleberry Finn", de 1884), centenas de contos e ensaios.
Um século depois, Tom Sawyer continua a fazer parte do imaginário de todos. O personagem, inspirado em três amigos de Mark Twain, vive aventuras reais (sempre descalço), assumidamente baseadas na vida do escritor.
Twain vs Sawyer
Twain tinha 12 anos quando abandonou a escola e decidiu tornar-se aprendiz numa gráfica. A escola não era, aliás, o seu lugar preferido, como deixa bem claro uma das suas famosas citações: "Nunca deixei que a escola atrapalhasse a minha educação."
Twain tinha 12 anos quando abandonou a escola e decidiu tornar-se aprendiz numa gráfica. A escola não era, aliás, o seu lugar preferido, como deixa bem claro uma das suas famosas citações: "Nunca deixei que a escola atrapalhasse a minha educação."
Da mesma forma, Tom Sawyer é um miúdo de 12 anos que considera a escola uma perda de tempo, não desperdiçando uma oportunidade de fazer gazeta. Mesmo que as consequências sejam castigos severos, dos quais, de alguma forma, ele consegue quase sempre escapar.
Mississípi
O rio é um dos elementos quase sempre presentes nas histórias de Twain. Tom Sawyer e Huckleberry Finn sobem e descem o rio de jangada, pescam nas margens e acreditam ser piratas a sério.
O rio é um dos elementos quase sempre presentes nas histórias de Twain. Tom Sawyer e Huckleberry Finn sobem e descem o rio de jangada, pescam nas margens e acreditam ser piratas a sério.
O escritor, que cresceu na margem do rio não foi um pirata mas chegou a ser piloto de um barco no Mississípi A aventura, porém, durou pouco: com o estourar da Guerra Civil, em 1861, o tráfico fluvial foi interrompido naquela região dos EUA.
Aventuras
Clemens foi um homem destemido. Assim que a sua carreira de piloto deu para o torto, o escritor rumou ao Nevada, em busca de riqueza. Contagiado pela febre da prata, participou na corrida ao metal precioso e tornou-se garimpeiro. Falhou. No entanto, e pela primeira vez, teve contacto com várias tribos de nativos americanos, experiência que passaria, mais tarde, para o papel. Tom Sawyer e Huck Finn são sinónimos de aventura.
Clemens foi um homem destemido. Assim que a sua carreira de piloto deu para o torto, o escritor rumou ao Nevada, em busca de riqueza. Contagiado pela febre da prata, participou na corrida ao metal precioso e tornou-se garimpeiro. Falhou. No entanto, e pela primeira vez, teve contacto com várias tribos de nativos americanos, experiência que passaria, mais tarde, para o papel. Tom Sawyer e Huck Finn são sinónimos de aventura.
Depois de terem fugido para se tornarem piratas a sério e de convencerem toda a cidade de São Petersburgo que tinham morrido, resolveram procurar um tesouro numa casa abandonada. Mas em vez de riquezas sem preço, dão de caras com o seu pior pesadelo: Joe, o índio.
A bíblia
Se Tom Sawyer vendia aos amigos os bilhetes distribuídos na catequese, como prémio para quem sabia os versículos bíblicos de cor, Mark Twain não fica atrás no que se refere ao escárnio da religião. Tom Sawyer sofria horrores a tentar decorar passagens da Bíblia e estava convencido que David e Golias tinham sido dois discípulos de Jesus. Twain optou por escrever cartas aos anjos, encarnando um outro anjo caído em desgraça: Satanás.
Se Tom Sawyer vendia aos amigos os bilhetes distribuídos na catequese, como prémio para quem sabia os versículos bíblicos de cor, Mark Twain não fica atrás no que se refere ao escárnio da religião. Tom Sawyer sofria horrores a tentar decorar passagens da Bíblia e estava convencido que David e Golias tinham sido dois discípulos de Jesus. Twain optou por escrever cartas aos anjos, encarnando um outro anjo caído em desgraça: Satanás.
Em "Cartas da Terra", uma obra póstuma - conjunto de ficção, ensaios e notas do autor - Twain coloca Satanás a viver entre os homens, como um castigo imposto por Deus. A humanidade torna-se imediatamente objecto de estudo pelo tal do senhor das trevas: "O homem é uma curiosidade maravilhosa, no seu pior, é inqualificável, inimaginável. Apesar disso, intitula-se, de modo lisonjeiro e sincero, a "'mais nobre obra de Deus'". Nem Adão e Eva escapam ao sarcasmo de Twain, na obra "Os Diários de Adão e Eva".
A crítica
Se o livro "As Aventuras de Tom Sawyer" é muito mais do que uma história infanto-juvenil, "As Aventuras de Huckleberry Finn" é das obras de Twain mais críticas da sociedade americana.
Se o livro "As Aventuras de Tom Sawyer" é muito mais do que uma história infanto-juvenil, "As Aventuras de Huckleberry Finn" é das obras de Twain mais críticas da sociedade americana.
Em "Tom Sawyer" o preconceito é retratado com Joe, o índio: o indiscutível mau da fita e alvo do ódio da cidade fictícia de São Petersburgo.
Em "Huckleberry Finn" - o pobre filho do bêbado da cidade - Mark Twain insurge-se contra a escravatura e denuncia o falhanço da reinserção dos afro-americanos na sociedade, no pós Guerra Civil.
(por Diana Garrido, Publicado em 20 de Abril de 2010 - ionline)

domingo, 28 de novembro de 2010
Ética e Moral - Desidério Murcho
Ética e moral
Uma distinção indistinta
Desidério Murcho
Desidério Murcho
A pretensa distinção entre a ética e a moral é intrinsecamente confusa e não tem qualquer utilidade. A pretensa distinção seria a seguinte: a ética seria uma reflexão filosófica sobre a moral. A moral seria os costumes, os hábitos, os comportamentos dos seres humanos, as regras de comportamento adoptadas pelas comunidades. Antes de vermos por que razão esta distinção resulta de confusão, perguntemo-nos: que ganhamos com ela?
Em primeiro lugar, não ganhamos uma compreensão clara das três áreas da ética: a ética aplicada, a ética normativa e a metaética. A ética aplicada trata de problemas práticos da ética, como o aborto ou a eutanásia, os direitos dos animais, ou a igualdade. A ética normativa trata de estabelecer, com fundamentação filosófica, regras ou códigos de comportamento ético, isto é, teorias éticas de primeira ordem. A metaética é uma reflexão sobre a natureza da própria ética: Será a ética objectiva, ou subjectiva? Será relativa à cultura ou à história, ou não?
Em segundo lugar, não ganhamos qualquer compreensão da natureza da reflexão filosófica sobre a ética. Não ficamos a saber que tipo de problemas constitui o objecto de estudo da ética. Nem ficamos a saber muito bem o que é a moral.
Em conclusão, nada ganhamos com esta pretensa distinção.
Mas, pior, trata-se de uma distinção indistinta, algo que é indefensável e que resulta de uma confusão. O comportamento dos seres humanos é multifacetado; nós fazemos várias coisas e temos vários costumes e nem todas as coisas que fazemos pertencem ao domínio da ética, porque nem todas têm significado ético. É por isso que é impossível determinar à partida que comportamentos seriam os comportamentos morais, dos quais se ocuparia a reflexão ética, e que comportamentos não constituem tal coisa. Fazer a distinção entre ética e moral supõe que podemos determinar, sem qualquer reflexão ou conceitos éticos prévios, quais dos nossos comportamentos pertencem ao domínio da moral e quais terão de ficar de fora. Mas isso é impossível de fazer, pelo que a distinção é confusa e na prática indistinta.
Vejamos um caso concreto: observamos uma comunidade que tem como regra de comportamento descalçar os sapatos quando vai para o jardim. Isso é um comportamento moral sobre o qual valha a pena reflectir eticamente? Como podemos saber? Não podemos. Só podemos determinar se esse comportamento é moral ou não quando já estamos a pensar em termos morais. A ideia de que primeiro há comportamentos morais e que depois vem o filósofo armado de uma palavra mágica, a "ética", é uma fantasia. As pessoas agem e reflectem sobre os seus comportamentos e consideram que determinados comportamentos são amorais, isto é, estão fora do domínio ético, como pregar pregos, e que outros comportamentos são morais, isto é, são comportamentos com relevância moral, como fazer abortos. E essas práticas e reflexões não estão magicamente separadas da reflexão filosófica. A reflexão filosófica é a continuação dessas reflexões.
Evidentemente, tanto podemos usar as palavras "ética" e "moral" como sinónimas, como podemos usá-las como não sinónimas. É irrelevante. O importante é saber do que estamos a falar se as usarmos como sinónimas e do que estamos a falar quando não as usamos como sinónimas. O problema didáctico, que provoca dificuldades a muitos estudantes, é que geralmente os autores que fazem a distinção entre moral e ética não conseguem, estranhamente, explicar bem qual é a diferença — além de dizer coisas vagas como "a ética é mais filosófica".
Se quisermos usar as palavras "moral" e "ética" como não sinónimas, estaremos a usar o termo "moral" unicamente para falar dos costumes e códigos de conduta culturais, religiosos, etc., que as pessoas têm. Assim, para um católico é imoral tomar a pílula ou fazer um aborto, tal como para um muçulmano é imoral uma mulher mostrar a cara em público, para não falar nas pernas. Deste ponto de vista, a "moral" não tem qualquer conteúdo filosófico; é apenas o que as pessoas efectivamente fazem e pensam. A ética, pelo contrário, deste ponto de vista, é a disciplina que analisa esses comportamentos e crenças, para determinar se eles são ou não aceitáveis filosoficamente. Assim, pode dar-se o caso que mostrar a cara em público seja imoral, apesar de não ser contrário à ética; pode até dar-se o caso de ser anti-ético defender que é imoral mostrar a cara em público e proibir as mulheres de o fazer.
O problema desta terminologia é que quem quer que tenha a experiência de escrever sobre assuntos éticos, percebe que ficamos rapidamente sem vocabulário. Como se viu acima, tive de escrever "anti-ético", porque não podia dizer "imoral". O nosso discurso fica assim mais contorcido e menos directo e claro. Quando se considera que "ética" e "moral" são termos sinónimos (e etimologicamente são sinónimos, porque são a tradução latina e grega uma da outra), resolve-se as coisas de maneira muito mais simples. Continuamos a fazer a distinção entre os comportamentos das pessoas e as suas crenças morais, mas não temos de introduzir o artificialismo de dizer que essas crenças morais, enquanto crenças morais, estão correctas, mas enquanto preferências éticas podem estar erradas. Isto só confunde as coisas. É muito mais fácil dizer que quem pensa que mostrar a cara é imoral está pura e simplesmente enganado, e está a confundir o que é um costume religioso ou cultural com o que é defensável. Peter Singer, James Rachels, Thomas Nagel, e tantos outros filósofos centrais, usam os termos "ética" e "moral" como sinónimos. Para falar dos costumes e códigos religiosos, temos precisamente estas expressões muito mais esclarecedoras: "costumes" e "códigos religiosos".
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
terça-feira, 23 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
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