Um outro olhar sobre o mundo

Um outro olhar sobre o mundo

sexta-feira, 9 de março de 2012

O apanhador de de desperdícios


O apanhador de de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis,
Tenho em mim esse atraso de nascença,
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas,
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros, Memórias Inventadas
(imagem)

terça-feira, 6 de março de 2012

Divine Comedy - The booklovers

José Gil sobre a educação


"Uma política educativa tem que partir de alguns destes dados, mesmo quando eles não podem ser quantificados. Por exemplo, se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria — e já não têm. Têm cada vez menos férias, cada vez menos tempo para ser pessoas. Uma das questões que coloco é se os responsáveis políticos se dão conta da especificidade da profi ssão de docente. A relação professor-aluno é extremamente intensa, delicada, forte, vital e específica. Vital para criar qualificação no trabalho e consciência democrática. É preciso fazer ressaltar esse factor que não está a ser pensado. A avaliação das competências tem de ter em conta um elemento inavaliável, inquantificável em que se funda a criatividade da educação.Os ministros da Educação já foram professores, mas, uma vez ministros, têm outros imperativos — e há um imperativo economicista enorme em Portugal. A ideia que, infelizmente, estou cada vez mais a formar do ministro da Educação Nuno Crato é que ele está a esquecer tudo o que escreveu, está a esquecer o que ele próprio pensou. E muito professores estão a sair, a pedir a reforma antecipada, desgostosos com o ensino, com a escola e consigo mesmos. Estão-se a ir embora. E a política da Educação a degenerar.”
 (José Gil, Público, 05-03-12)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Moacyr Scliar (23/03/37 a 27/02/11)



Cego e amigo Gedeão à beira da estrada
Moacyr Scliar

— Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?

— Não, Cego. Foi um Simca Tufão.

— Um Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.

Este que passou agora não foi um Ford?

— Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.

— Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.

É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?

— Não, Cego. Foi uma lambreta.

— Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.

Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!

Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?

— Não, Cego. Foi o ônibus.

— Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.

Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?

— Não. Foi um Volkswagen 1964.

— Ah, um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?

— Não, Cego, não foi um Candango.

— Eu estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam por onde começar.

Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!

— Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.

— Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?

— Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.

— Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei:
"Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?"

— "Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele. "Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada.

Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?

— Não, Cego. Foi um Volkswagen.

— Sim. O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora, delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei — além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?

— Não, Cego. Foi um Chevrolet.

— O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?

— Não, Cego. Foi um Ford 1956.

O texto acima foi publicado no livro "Para Gostar de Ler — Volume 9 — Contos", Editora Ática — São Paulo, 1984, pág. 26. - Retirado daqui

domingo, 26 de fevereiro de 2012

TERTÚLIA Ouvir e Falar - Fundão - Março


Pode ser só o desejo de tocar um outro tempo e respirar do berço desta civilização que é a minha. Ganhar alento na Antiga Grécia. Tomar balanço e percorrer a Ágora. Trazer o pensamento para a rua. Demorar-me nele. Sem medos, donos, arreios ou dogmas. Sem uma agenda explícita ou escondida. Sem inimigos declarados ou amigos a proteger. Sem tomadas de posição colectivas ou histerismos de momento. Só pensamento livre e crítico. Reflexão e opinião. Usar a razão e exercer a cidadania. O que me faz humano. Libertar a palavra e dar-lhe forma. Voltar por instantes à Antiga Grécia, trazê-la para Portugal, para junto de minha casa, aqui e agora, onde tudo começa e acaba. Onde eu sou. Sair do conforto do café e da televisão, da protecção do virtual, dar a cara por uma ideia e arriscar levar com outra bem no meio das trombas, dar o braço a torcer ou nem por isso, descobrir outra forma de ver o mundo. Inconformar-me com o fato que me vestem. Não comer e não calar. Direito, mas também dever. Ousar pensar para conseguir fazer. SER MAIOR. Esclarecido. Para tornar a vida digna. Para contar aos filhos. Não é preciso saber exactamente para onde vou. Apenas mudar o ponto de vista, o meu, e é todo o mundo que muda. Ou então permanecer como observador passivo, que é uma outra forma de já estar morto.
É disto que se trata, no Fundão, no final de Março, ser mais, ser melhor, basta aparecer. 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Mas que raio fizeram os gregos por nós?


Cena 9 - Interior - dia
            (Reunião ordinária do Governo alemão, gabinete pequeno para poupar em luz e aquecimento, 17:45h, sem pausa para lanche, cada ministro trouxe a sua sandes de casa.)

CHANCELER MERKEL (irritada): Os malditos gregos tiram-nos o dinheiro todo, os bastardos. Trabalham pouco e levam-nos o dinheiro que tanto nos custou a ganhar, a nós, aos nossos pais e aos pais dos nossos pais…
 WOLFGANG SCHÄUBLE: E aos pais dos pais dos nossos pais.
 CHANCELER MERKEL: Sim.
 WOLFGANG SCHÄUBLE: E aos pais dos pais dos pais dos nossos pais.
 CHANCELER MERKEL: Sim, Wolfgang, não aprofundemos mais a questão. Mas o que é que eles nos deram até hoje?
 PHILIP RÖSLER: o Teatro?
 CHANCELER MERKEL: O quê?
 PHILIP RÖSLER: o Teatro… Ésquilo, Sófocles, Aristófanes…
 CHANCELER MERKEL: Oh! Sim, pois. Eles deram-nos isso, é verdade.
 HANS – PETER FRIEDRICH: E a Filosofia, com Sócrates, Platão e os outros todos…
 URSULA VON DER LEYEN: Sim, a Filosofia, lembras-te como pensávamos antes da Filosofia?
 CHANCELER MERKEL (condescendente): Sim, pronto, o Teatro e a Filosofia foram duas coisas que os gregos nos deram.
 ILSE AIGNER: E a Oratória.
 CHANCELER MERKEL: Bem, sim, obviamente a oratória, quer dizer, nem era preciso dizer, certo? Mas, para além do Teatro, a Filosofia e a Oratória…
 ANNETE SCHAVAN: A Ciência, com Arquimedes, Aristóteles…
 DANIEL BAHR: A Medicina, lembras-te de Hipócrates?
 MINISTROS EM CORO: Pois, pois, isso…
 ANNETE SCHAVAN: Heródoto e a História
 MINISTROS EM CORO: Oh, sim…
 CHANCELER MERKEL (a ficar impaciente)Sim, pronto, ok, é justo.
 THOMAS DE MAIZINE: E estratégia militar.
 KRISTINE SCHRÖDER: Introduziram as vogais no alfabeto.
 MINISTROS EM CORO: Oh, sim, isso foi importante.
 DIRK NIEBEL: Sim, isso seria algo de que sentiríamos realmente falta!
 NORBERT RÖTGEN: Os Jogos Olímpicos.
 PETER RAMSAUER: Pitágoras.
 RONALD POFALLA: Arte.
 SABINE LEUTHEUSSER-SCHNARRENBERGER: Organização social.
 THOMAS DE MAIZENE: Ajudaram-nos depois daquela chatice da segunda guerra.
 CHANCELER MERKEL (fora de si): Sim, pronto, ok, mas para além do Teatro, a Filosofia, a Oratória, a Ciência, a Medicina, a História, a estratégia militar, as vogais, os Jogos Olímpicos, a Matemática, a Arte, a organização social e aquilo da guerra, O QUE É QUE OS GREGOS NOS DERAM?
 ILSE AIGNER: A Democracia.
CHANCELER MERKEL: A Democracia? Cala-te lá com essa merda!

 (Descaradamente adaptado dos senhores Chapman, Gilliam, Cleese, Idle, Palin e Jones)
 (imagem daqui)
 Publicado também aqui

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo de Martin Scorsese

O filme de Scorsese é uma adaptação de um livro de Brian Selznick que conta a história de Hugo, um órfão, guardião dos relógios e ladrão, que vive por entre as paredes de uma movimentada estação de comboios parisiense, onde a sua sobrevivência depende de segredos e do anonimato. Quando o seu pequeno mundo se encaixa - tal como as rodas dentadas dos relógios que vigia - com o de uma excêntrica rapariga amante de livros e o de um velho amargo, dono de uma loja de brinquedos, a vida secreta de Hugo e o seu segredo mais precioso são colocados em risco. Um desenho misterioso, um bloco que vale ouro, uma chave roubada, um homem mecânico e uma mensagem escondida do falecido pai de Hugo formam a espinha dorsal deste intrincado, terno e arrebatador mistério.

Este é um livro que faz parte do Plano Nacional de Leitura






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Inconformismo

Por Ferreira Fernandes

UMA FOTO de 1936 marcou a semana. Um operário de um estaleiro de Hamburgo, no meio de uma multidão que fazia saudação nazi, é o único de braços cruzados. August Landmesser, de 26 anos, tinha boas razões para não ser nazi, era casado com uma judia alemã, mas também tinha prudentes razões para não chamar a atenção com gesto tão rebelde. E, no entanto, fê-lo. Por causa dos braços cruzados num mar contrário, Landmesser foi preso, metido durante a II Guerra Mundial num batalhão penal e desapareceu na frente russa. Quando, agora, um blogue recuperou a foto, a admiração que temos pelos gestos solitários, corajosos e calmos tornou a imagem viral e passeou-a pelo mundo fora. Por cá, também, mas com uma lacuna jornalística (julgo).
As notícias longínquas têm interesse em ser acompanhadas por similares notícias locais, se as houver, para melhor as explicarmos. Por esquecimento, ignorância ou tão-só esse vício dos jornais que dá por sabido o que já foi publicado ("já demos..."), não vi, esta semana, a foto dos irmãos portugueses de August Landmesser. Em 30 de janeiro de 1938, no Portugal-Espanha, no estádio das Salésias, a seleção portuguesa perfilou-se ao hino nacional e estendeu o braço em saudação fascista, como era norma. Mas três jogadores - Artur Quaresma, José Simões e Mariano Amaro, todos do Belenenses - não fizeram o gesto fascista. Há foto.
Resultado final do jogo: lembro-me do nome dos três, dos outros oito não.
(«DN» de 12 Fev 12 e sorumbatico.blogspot.com)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Matriz 3º Teste Filosofia

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fernando Assis Pacheco (01/02/1937 a 30/11/95)



O Poeta no Supermercado

I
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

II
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de miostérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.